Pára-quedistas
americanos
A
atuação detalhada da 82ª e 101ª Divisão aerotransportadas americanas na
invasão da Normandia no dia 6 de junho de 1944.
Meia
hora após o pôr-do-sol de 5 de junho, enquanto os navios de vanguarda do
assalto naval entravam nos canais delimitados por bóias, aproando para a França,
os pára-quedistas precursores das forças aéreas americana e inglesa decolaram
dos seus campos para acender seus faróis nos campos da Normandia.
Pouco depois da meia-noite, essas pequenas vanguardas de tropas de elite se
moviam silenciosamente no meio do inimigo, onde os britânicos demarcariam as
zonas de salto para a 6ª Divisão Aeroterrestre, a nordeste de Caen, no flanco
oriental; os americanos saltaram entre o rio Merderet e a estrada
Carentan-Montebourg-Cherburgo, na área de St.-Mère-Église. Através deles,
mais de 1.200 aviões trouxeram quase 20.000 homens para a batalha; depois
destes, vinham os planadores, cujo caminho devia ser aberto pelos pára-quedistas.
Era uma operação que enchia o sir Trafford Leigh-Mallory de pressentimentos.
Ele receava um número muito grande de baixas, mas era preciso que se realizasse
o assalto aeroterrestre. Eisenhower estivera apreensivo, e na noite do dia 5
ficou com a 101ª Divisão Aeroterrestre americana, até depois da meia-noite,
quando o último avião decolou. Ele se sentiu melhor com isso; encontrara os
homens "bem dispostos", mostrando-se plenamente confiantes.
Leigh-Mallory, visitando tantos campos de aviação quantos pôde, procurou
assegurar-se de que fizera todo o possível para dar uma boa oportunidade aos
homens. Muitos jamais haviam sofrido ataques antiaéreos e os atrasos e
dificuldades na obtenção de número suficiente de aviões de transporte haviam
impedido que o treinamento atingisse o mais alto padrão desejável. Pelas
mesmas razões, pode-se dizer o mesmo das tripulações das barcaças de
desembarque de tanques, agora a caminho. Mas no mar, muitas vezes podia haver
uma segunda ou terceira chance, enquanto que no ar, raramente se tem mais de
"uma vida".
Será que seu treinamento os ajudaria - e às suas cargas - a chegar a salvo nas
zonas de salto? Só a noite daria a resposta.
Leigh-Mallory não tinha nenhum critério para julgar o temperamento dos
americanos, mas, sobre seus próprios homens, ele escreveu que seu comportamento
era "sombrio, mas eu não tinha dúvidas quanto à sua determinação de
realizar a tarefa". Outro, que viu o 7º Btl. da 5ª Bgda. de Pára-quedistas
pouco antes da decolagem, observou o "estado de espírito sombrio e
decidido", não se pilheriava, alguns cantavam baixinho e "havia certa
dose de medo sincero".
O último aviso do brigadeiro que comandava a 3ª Brigada de Pára-quedistas
pode servir para todos: "Não se assustem se houver caos; é certo que
haverá".
O salto
O desembarque da 101ª Divisão Aeroterrestre dos Estados Unidos, cujo
planejamento fora tão completo quanto o permitiram as informações coletadas,
salpicou o mapa numa área de 40 Km de comprimento por 23 Km de largura. Porém,
alguns elementos isolados saltaram mais longe, e destes, poucos tinham qualquer
chance de se unirem à divisão, caindo em regiões pantanosas e no labirinto do
terreno cerrado atrás da praia de Utah.
A 82ª Divisão, sobretudo graças à chegada de um regimento aos seus
objetivos, saiu-se um pouco melhor, mas só 4% do restante da divisão foram lançados
nas suas zonas a oeste do rio Merderet. Assim, as tarefas da Divisão a oeste do
Merderet e as travessias dos rios Merderet e Douve, não podiam ser realizadas e
asseguradas. A Divisão se transformara em um regimento.
Ao amanhecer, quando os desembarques navais se aproximavam da praia Utah, a 101ª
Divisão reunira 1.100 dos seus 6.600 homens. Ao anoitecer, seu efetivo
aumentara para 2.500. A 82ª, da qual faltavam pelo menos 4.000 homens naquele
dia, ainda tinha somente um terço do seu efetivo três dias mais tarde. As duas
divisões haviam perdido grandes quantidades de equipamento e quase toda a sua
artilharia transportada por planadores, grande parte desta nos pântanos dos
rios Merderet e Douve. Nenhuma das duas divisões pôde preparar-se
adequadamente para a chegada dos seus reforços em planadores, e as baixas foram
severas.
Mas o fato notável é que se criou uma confusão tão grande no seio do
inimigo, com essa dispersão incoerente de homens em suas linhas, que as
reservas alemãs não tinham condições de apoiar os defensores nas praias ou
os meios para contra-atacar com eficiência. A batalha da praia de Utah estava
praticamente quando a 44ª Divisão de Infantaria começou a desembarcar.
Não chegou a configurar-se um quadro coerente das lutas dos remanescentes
isolados das divisões aeroterrestres naquele dia. Jamais se avaliarão as
contribuições individuais de muitos homens que lutaram bravamente, sozinhos ou
em grupos de dois ou três.Mesmo os que se entregaram sem reagir, contribuíram,
em vez de diminuir, para a confusão do inimigo. Os pára-quedistas precursores
não se saíram bem. Muitos não conseguiram achar e demarcar as zonas de
saltos; faltavam alguns faróis, especialmente a oeste do Merderet, na região
infestada pelo inimigo; outros estavam colocados errados. Pilotos que pela
primeira vez sofriam ataques antiaéreos, muitos deles "inadequadamente
instruídos", tomaram medidas evasivas insensatas, perderam a direção nos
bancos de nuvens e ultrapassaram as zonas de salto. Muitos passaram alto e
depressa demais, despejando de "enfiada" seus homens, aumentando
bastante os perigos do desembarque.
O Major-General Maxwell Taylor, comandante da 101ª Divisão, saltou num núcleo
de seu comando de divisão e se esforçou durante todo o dia para travar
contatos e pôr alguma ordem no caos reinante. Não obstante, ele se sentiu
"sozinho no Contentin" durante a maior parte do dia.
Aliás, a mistura imprevisível de saltos de diversos tipos, em grupos isolados
e aos pares, no seu meio, paralisou o inimigo, e a aparente insensatez do
desembarque tornou-se o mais importante fator do estranho sucesso obtido. O
inimigo parecia estar sendo acossado por todos os lados por uma multidão de
sombras indistintas, materializando-se em pontos aparentemente desconexos na
realidade dura e negra de grupos desesperados de homens, não havendo meios de
avaliar os efetivos reunidos contra ele, ou de que direção partiam os ataques.
A interrupção das suas comunicações dificultava a reunião dos fragmentos do
quebra-cabeças em que se viram metidos, de repente, os batalhões, os
regimentos e os postos avançados. Sentia-se o inimigo mais perdido do que seu
adversário, e cônscio de que estava numa terra em que todos estavam prontos
para se voltarem contra ele.
Por notável golpe de sorte, um pequeno grupo de homens emboscou e matou o
comandante da 91ª Divisão alemã, que voltava de uma conferência para seu
quartel-general. Assim, a 91ª Divisão, treinada para reprimir ataque
aeroterrestre e formando praticamente a única reserva disponível na retaguarda
dos defensores da costa do Contentin, uma vez privada do seu comandante, ficou
com sua capacidade comprometida.
Muitas pequenas aldeias, nas áreas costeiras, haviam sido organizadas como
pontos fortificados, onde as guarnições alemãs estavam tão isoladas e solitárias
como os que as atacavam a esmo dentro da noite. Os comandantes inimigos,
ouvindo, ansiosos, os ruídos da guerra nos céus, às vezes sentiam-se
avassalados. Os informes que chegavam ao 7º Exército alemão e ao Grupo de Exércitos
B não logravam criar configurações coerentes nos mapas de operações.
Sabia-se muito - e pouco - e nada se enquadrava. De Caen, no leste, às costas
ocidentais do Contentin, havia desembarques de tropas aeroterrestres, enquanto
que, desde as primeiras horas, um dilúvio de bombas caía sobre as praias e
posições defensivas avançadas.
Finalmente a Armada começou a despejar uma verdadeira multidão de homens e
barcaças de desembarque nas águas ao longo da costa normanda. Enquanto muitos
estavam certos que esse devia ser o começo do principal assalto aliado, há
tanto aguardado, e de que o campo de batalha seria a Normandia; outros,
incluindo o Tenente-General Speidel, Chefe do EM de Rommel, e o Tenente-General
Blumentritt, chefe do EM de Rundstedt, estavam em dúvida. Assim, a máquina
militar alemã continuou hesitante, com suas escassas reservas não
comprometidas, Rommel fora de contato na estrada para Ulm e Hitler dormindo.
Tudo isso deu às tropas situadas no flanco ocidental uma vantagem inicial que
ignoravam e que as salvou de possível aniquilamento.
As primeiras tarefas da 101ª Aeroterrestre eram tomar e defender as saídas
ocidentais dos quatro caminhos nos pântanos atrás da praia Utah e que se
estendiam desde St.-Germain-de-Varreville até Pouppeville. Para o sul, ela
precisava tomar a eclusa de La Barquette, que controlava o nível do rio, e
estabelecer cabeças de ponte sobre o Douve, abaixo do Carentan. Assim, ela
abriria caminho para as tropas navais, garantiria o flanco sul do VII Corpo e
estaria pronta a alinhar-se com o V Corpo para o assalto a Omaha.
Menos de uma hora antes que os primeiros pára-quedistas começassem a saltar
dos aviões, seis colunas perceptíveis, compostas de elementos misturados da
divisão, já estavam a caminho de seus objetivos. Cada coluna tinha à frente
um coronel ou tenente-coronel e, por se deslocarem de modo deliberado e com um
fim definido, cada coluna acrescentou indivíduos "perdidos" aos seus
efetivos.
Por sorte, um volume que bloqueava a porta do avião, atrasou o salto do Coronel
Johnson e de um grupo de homens, levando-os a saltar bem próximo da eclusa de
La Barquette. Reunindo uma força total de 150 homens, Johnson dirigiu-se
rapidamente para a eclusa, destacando 50 homens para tomar a posição. O grupo
havia atravessado antes que o inimigo reagisse com morteiros e artilharia. Na
melhor das hipóteses era uma cabeça de ponte fraca, de apenas 100m de largura,
mas o Cel. Johnson tinha de arriscar-se. Suas patrulhas haviam-lhe revelado que
estava no meio de uma confusão de inimigos e de pequenos bolsões de suas próprias
tropas. A despeito de muitas tentativas bravas, as pontes sobre o Douve e o
flanco sul permaneceram desprotegidas.
Entrementes, cinco coronéis se locomoviam com rapidez diferente e sortes
diversas rumo às tarefas urgentes de tomar as saídas das praias. Nenhum deles
sabia da existência dos outros; cada coluna estava inteiramente só, procurando
o que poderia ser possível fazer.
Alguns quilômetros ao sul, próximo da aldeia de Colleville, um comandante de
regimento vinha-se esforçando desde antes do amanhecer para estabelecer um
posto de comando e servir como ponto focal para seu regimento. Assediado por
todos os lados, o coronel muitas vezes tinha dificuldade para manter sua precária
posição. Todavia, ele mandara sua única "reserva" possível, uma
força de 50 homens, dirigidos por um de seus comandantes de batalhão com quem
podia manter contato, garantir a saída sul da praia, em Pouppeville. Insistindo
para que essa força se apressasse ao máximo, o coronel sentiu uma sensação
de isolamento que, muito erroneamente, julgava ser única na península de
Contentin.
Naquela mesma hora, um coronel, com 200 homens, dirigia-se com dificuldades para
o sul, na mesma missão, tendo sido lançado quilômetros ao norte de seu
objetivo.
Talvez por sorte, o Gal. Taylor, que conseguira estabelecer o núcleo de um
posto de comando de divisão com alguns efetivos, nada sabia desses movimentos;
tudo o que estava fora de seus olhos era um livro fechado. Ele imediatamente
ordenou a uma força de 50 homens que se dirigisse para Pouppeville e se uniu à
marcha com 18 oficiais. Assim, três colunas independentes convergiam para as saídas
do sul.
Eram 8 horas quando essa pequena força alcançou Pouppeville, sentiu o batismo
de fogo nos postos avançados inimigos e, incapaz de manobrar, travou luta
renhida de casa em casa. Ao meio-dia, quando os remanescentes da guarnição
alemã se renderam, pressionada também pela infantaria avançada da 4ª Divisão,
que vinha pelo caminho, a força perdera 18 homens.
Outra coluna, porém, chegava a Houdienville a tempo para encontrar as forças
marítimas que avançavam. A terceira força progredira ainda mais lentamente,
incapaz de se livrar de pequenos grupos inimigos que lhe hostilizavam os
flancos.
Durante todo o dia e toda a noite, a 101ª Aeroterrestre, reduzida a uma força
efetiva muito inferior à de um regimento, não só estava isolada das suas
unidades muito espalhadas, como também ignorava por completo o destino da 82ª.
A história da 82ª Aeroterrestre é simples: dois dos seus regimentos
encarregados de limpar a área a oeste do Merderet e o ângulo do Douve não
estavam na luta. Coube a um regimento salvar o dia e travar a única batalha
definida em que se empenharam as forças aeroterrestres americanas no Dia D.
Enquanto dezenas de homens se moviam com dificuldades nos pântanos do Merderet,
arrastando-se para a terra firme do aterro da linha ferroviária, interessadas,
sobretudo em sobreviver, o 3º Regimento saltara, num grupo bastante coeso, a
noroeste de St-Mère-Église. Isto não se deveu ao acaso, mas à determinação
dos pilotos, tão espalhados quanto os outros, em encontrar seus objetivos.
Muito antes da aurora, um comandante de batalhão, encontrando-se nos arredores
de St-Mère-Église com apenas um quarto de seus homens, lançou-se sobre a
cidade sem esperar por qualquer tipo de auxílio e sem se preocupar com os
perigos do trabalho de "limpeza" de casa em casa. Surpreendendo
completamente o inimigo, ele começou a estabelecer uma base sólida de valor
inestimável.
Já à tarde, a cidade estava segura e quatro ações reconhecíveis haviam sido
desenvolvidas, À parte alguns encontros fragmentários nos ermos a oeste de
Merderet.
A 82ª saltara nas fímbrias da área de reunião da 91ª Divisão alemã, e a
sua posição, desde o começo, foi muito mais precária do que a da 101ª.
Todas as tropas, por mais fragmentadas que estivessem, encontraram-se
imediatamente no meio do inimigo e lutando pela sobrevivência minutos após
tocarem o solo. Alguns grupos pequenos de 50 a 60 homens combateram durante o
dia inteiro nas trincheiras e valas, a mil metros um do outro, e com a
impossibilidade de contato. Muitas vezes ignoravam estarem tão próximos. Ao
mesmo tempo, o Gal. Gavin, Subcomandante da Divisão, deu uma batida nos campos
e pântanos À procura de homens e equipamento e, por fim, dirigiu-se para o sul
com uma força de efetivo apreciável, acompanhando o aterro ferroviário, para
participar do ataque à La Fiére pelo leste.
Entretanto, ao norte, sobre a estrada principal de Carentan a Montebourg, um
pelotão, com 42 homens, dois canhões antitanque de 57 mm e algumas bazucas,
atravessou Neuville sem ser molestado e atingiu o altiplano imediatamente ao
norte. Mal os homens se haviam deslocado, o inimigo os atacou do norte.
Hostilizados por intenso fogo de morteiro e constantemente assaltados por
soldados de infantaria na proporção de 5 para 1, os homens mantiveram-se
firmes. Finalmente ao anoitecer, 16 homens recuaram lentamente por Neuville,
deixando 26 homens do pelotão mortos na encosta. Haviam defendido St-Mère-Église
de um contra-ataque pelo norte durante 8 horas.
O desempenho das 101ª e 82ª Aeroterrestres no Dia D tem de ser visto em
fragmentos como este. A confusão que seu desembarque, um tanto desordenado,
levou ao inimigo talvez tenha sido mais eficaz, para os seus objetivos, do que
se tudo tivesse saído conforme os planos. No fim do dia, as divisões não
tinham estabelecido contato entre si. Cada uma acreditava ter perdido uns dois
terços das suas tropas. Mas nenhuma delas encontrava razões para ficar
satisfeita, nem tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Tudo o que
podiam fazer era aguardar o novo dia.
Aliás, a confusão do inimigo praticamente equivalia ao colapso total.
Violentamente martelado pelo ar, incapacitado pela possibilidade de uma conferência
em Rennes com seus comandantes superiores, com suas comunicações interrompidas
e com o que parecia ser um pressentimento do fim inevitável, sua resistência
era tão fragmentada como a das tropas aeroterrestres que infestavam sua imaginação
e seus campos. Muitos se renderam praticamente sem luta. O Major von der Heydte,
comandante do 6º Regimento de Pára-quedistas alemão, provavelmente a melhor
tropa disponível na área de Carentan, falou das dificuldades em receber ordens
dos seus comandantes superiores. Do campanário da igreja de St-Côme-du-Mont,
ele podia ver a Armada no flanco oeste; ela lhe parecia curiosamente desligada
da realidade, quase tranqüila. Ao meio-dia, o sol brilhava e toda a cena lhe
trazia lembranças "de um dia de verão no Wannsee", o lago de recreação
em Berlim. A imensa azáfama das barcaças de desembarque e as belonaves que
sumiam no horizonte não traziam aos seus ouvidos a orquestração da batalha.
Von de Heydte enviou três dos seus batalhões para a batalha: um para o norte,
a fim de atacar St-Mère-Église; outro para o nordeste, para proteger o flanco
do lado do mar na área de St-Marie-du-Mont; e o terceiro, de volta ao Carentan.
Quase que imediatamente depois, ele perdeu qualquer contato, pois a defesa
organizada no flanco ocidental ruíra como as Muralhas de Jericó.
Fonte deste artigo: O Dia D, R. W. Thompson - O mais longo dos dias, Cornelius Ryan - Invasão 44, Paul Carell
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